A quatro mãos

Urbano Tavares Rodrigues

Por Fernanda Mestrinho
publicado em 17 Ago 2013 – 05:00

Urbano Tavares Rodrigues corrigiu-me o primeiro texto, aos 19 anos, no “Diário de Lisboa”. Morreu no passado fim-de-semana. Por isso o texto de hoje será a quatro mãos.
Vou escrever sobre aquela que vai brincar aos pobrezinhos na Comporta. Saiu-lhe isto de espírito santo de orelha? Recorro a Urbano:
“É apenas uma pobre de espírito…” (penso ouvir).

Pobre de espírito – sugestão aceite. Mas preciso de mais umas linhas. Os filhos deles vão para a City , bancos ou grandes empresas lá fora. Afinal também emigram, ia começar a escrever.
“Não !” (oiço). “São colocados pelas famílias.”
As revistas mostram-nos nas mesmas praias, nos mesmos restaurantes, em bando. Porque será? “A verdadeira gaiola dourada”, novo sussurro.

Quanto aos negócios com o Estado, a frase é ainda mais curta: “O Estado somos nós…” (nova sugestão). Artigo terminado. Podia ter sido escrito assim, Urbano! Frontal mas elegante, académico, bondoso, discreto, incapaz de dizer mal de alguém. Adorava ajudar a gente nova.
O caixão de Urbano Tavares Rodrigues ia envolvido na bandeira do Partido Comunista Português. Há uns anos assistiu ao desabar do mundo socialista, mas ainda viveu o suficiente para assistir à implosão do capitalismo financeiro de casino. Em qualquer dos casos, sei que pensou sempre nas pessoas mais desfavorecidas. Sabia que são elas que sofrem sempre as consequências. Era um humanista.
Pobre de espírito? Gosto desta elegância no desprezo. Obrigada, Urbano, vou continuar a treinar.

Jornalista/advogada
Escreve ao sábado

http://www.ionline.pt

Anúncios

“A obra de Urbano deve ser lida”, diz José Casanova

Rui Mendes, Antena109 Ago, 2013, 14:09

O diretor do Avante! lamentou hoje a “perda irreparável para a cultura portuguesa” que constitui a morte do escritor e militante comunista Urbano Tavares Rodrigues, cuja obra está marcada pelos valores da “liberdade, da justiça social, da fraternidade”. De acordo com José Casanova, “a obra de Urbano deve ser lida”.

“A morte do Urbano é uma perda irreparável para a cultura portuguesa. O Urbano é uma figura maior da literatura portuguesa, autor de uma vasta obra literária, romance, novela, conto, ensaio, viagens”, disse José Casanova.

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=672584&tm=4&layout=123&visual=61