Professora, até ontem

O meu nome é Sónia Mano, até ontem era professora de Matemática na escola E.B. 2,3 de S. Torcato, em Guimarães (onde me encontrava a trabalhar com contrato a termo incerto). Hoje de manhã, por volta das 9h, recebi um telefonema da Secretaria da referida escola a informar-me de que o meu contrato de trabalho cessara no dia anterior.

Até aqui, poderá pensar-se… é uma coisa natural, mais uma professora dispensada do serviço após mais de seis meses de trabalho árduo com alunos oriundos de meios socioeconómicos muito desfavorecidos: Até eu estava já preparada para a eventualidade de receber a notícia nestes moldes. Mas e o que é feito do prazo legal de três dias para avisar um empregado de que o seu contrato vai terminar? Eu sou apenas mais uma das vítimas do Estado e da actual conjuntura que o país atravessa.

Mas o porquê do meu e-mail vai muito para além das queixas para com o sistema. É mais um grito, uma tentativa de que dêem algum tipo de atenção a certas situações que estão a acontecer neste país. Como eu, fo- mos várias as pessoas dispensadas hoje de manhã, ou melhor, informadas hoje de manhã de que o nosso contrato terminara no dia anterior. Não será isto mais uma vergonha do nosso país? Não há qualquer respeito pelos profissionais, nem pelo seu trabalho e esforço.

Mais acrescento, neste meu desabafo, que iniciei, a meio da semana passada, a correcção de EXAMES NACIONAIS do 9.º Ano! Este trabalho, não está concluído! Termina apenas amanhã, dia 8 de Julho. Entretanto, já amanhã, tenho uma reunião para aferição de critérios de avaliação, reu- nião essa de carácter obrigatório. E agora eu pergunto: O MEU CONTRATO DE TRABALHO E A MINHA LIGAÇÃO AO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO TERMINOU ONTEM. Como vão os alunos ter avaliação no referido exame? Quem vai suportar as despesas de deslocação de Vila Verde (minha residência oficial) até Guimarães?!

Hoje a minha vontade é não entregar os Exames, mas mais forte do que essa vontade é a necessidade de nunca prejudicar os alunos por causa de mais um erro do nosso sistema de ensino. Amanhã, eu irei suportar despesas de deslocação e voltarei a fazê-lo na sexta para entrega dos Exames. Durante esses dois dias, vou fazer uma aplicação criteriosa dos critérios de classificação. Mas precisava de fazer este desabafo: parem de chamar incompetentes aos professores portugueses, aqueles que lutam todos os dias por melhores condições numa escola cada vez mais pobre em valores, tais como a entre-ajuda e a solidariedade. Ajudem-nos a ajudar os vossos/nossos filhos a crescerem como cidadãos e, por favor, na luta pelos meus direitos enquanto trabalhadora/professora/EDUCADORA. Ajudem- -me a divulgar este caso que é apenas mais uma das vergonhas em que o nosso Estado está envolvido!

Tenho provas e documentos oficiais que comprovam cada uma das afirmações que estou a divulgar. Não sei mais onde me dirigir: é preciso que os portugueses saibam o que se está a passar numa escola pública de Portugal.

Sónia Mano

Diário do Minho

QUINTA-FEIRA 7 de Julho de 2011 Ano XCII N.º 29 277

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Este Cavaco Silva não tem vergonha… E a escola pública?

Enquanto primeiro-ministro continuou a destruição da escola pública; Como Presidente da Republica assistiu, na bancada central, à continuação da destruição da escola publica…

Ao longo destes anos, os sucessivos governos têm atacado a escola pública, demonstrando intenções de quererem acabar com ela; Em beneficio das escolas privadas.

Não tenho nada contra as escolas privadas, mas quem quer ir para o privado que pague, e deixem o dinheiro público para investir nas escolas públicas, quer em quantidade quer em qualidade…

Se os sucessivos governos tivessem disponibilizado, para o ensino publico, o dinheiro que têm gasto com os privados, a esta hora tínhamos um ensino publico que nada devia ao existente, na maioria, nos países nórdicos.

Verdade, verdadinha…

Se existisse um bom ensino público já ninguém queria ir para as escolas privadas… e lá se ia o negócio lucrativo por água abaixo….

Por isso é preciso dar “cabo” do ensino público, para os “meninos” irem para o privado, e o estado financiar as instituições e os lucros dos seus proprietários.

Se ainda existem escolas públicas com qualidade, isto deve-se à carolice e sacrifício dos professores… professores que têm visto os seus direitos serem roubados, assim como, têm sido enxovalhados na praça pública por aqueles que os deviam defender.

Acho engraçado a preocupação que têm para com os professores do ensino privado; No entanto quando pagam ordenados de miséria a esses professores, e através de recibos verdes, não têm pena deles, nem se importam de saber como é que eles sobrevivem…

Se a escola pública funcionasse em boas condições, estes professores já não precisavam de andarem a ser explorados, pois teriam direito a ensinar com o mínimo de condições de vida e sabiam onde estariam no ano seguinte.

Se assim fosse quem perdia? Só os donos destes colégios privados , que fazem da exploração um negócio. E ainda por cima à conta dos nossos impostos.

Quanto à igreja:

Tenho pena que durante estes anos em que os sucessivos governos têm dado cabo da escola publica, a “Igreja” não se tenha organizado, como no presente, para denunciar e lutar contra a destruição de um bem tão precioso.

Enquanto isso Cavaco Silva, como Presidente da Republica, tem assistido impávido e sereno… mas agora como vão ao bolso dos seus amigos lá vem ele com moralismos… moralismo que não teve quando, como primeiro-ministro e presidente da república, contribuiu com actos e omissões para destruir um bem tão precioso, que é a ESCOLA PUBLICA.

A indisciplina nas escolas (vista por F. Savater)

Aumento da violência nas escolas reflecte crise de autoridade familiar Especialistas em educação reunidos na cidade espanhola de Valência defenderam hoje que o aumento da violência escolar deve-se, em parte, a uma crise de autoridade familiar, pelo facto de os pais renunciarem a impor disciplina aos filhos, remetendo essa responsabilidade para os professores.

Os participantes no encontro ‘Família e Escola: um espaço de convivência’, dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas.
‘As crianças não encontram em casa a figura de autoridade’, que é um elemento fundamental para o seu crescimento, disse o filósofo Fernando Savater.
‘As famílias não são o que eram antes e hoje o único meio com que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa’, sublinhou.
Para Savater, os pais continuam ‘a não querer assumir qualquer autoridade’, preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos ‘seja alegre’ e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinador quase exclusivamente para os professores.
No entanto, e quando os professores tentam exercer esse papel disciplinador, ‘são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os’, acusa…
‘O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente, não tem razão para depois se ir queixar’, sublinha.
Há professores que são ‘vítimas nas mãos dos alunos’.
Savater acusa igualmente as famílias de pensarem que ‘ao pagar uma escola’ deixa de ser necessário impor responsabilidade, alertando para a situação de muitos professores que estão ‘psicologicamente esgotados’ e que se transformam ‘em autênticas vítimas nas mãos dos alunos’.
A liberdade, afirma, ‘exige uma componente de disciplina’ que obriga a que os docentes não estejam desamparados e sem apoio, nomeadamente das famílias e da sociedade.
‘A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara’, afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, ‘uma oportunidade e um privilégio’.
‘Em algum momento das suas vidas, as crianças vão confrontar-se com a disciplina’, frisa Fernando Savater. Em conversa com jornalistas, o filósofo explicou que é essencial perceber que as crianças não são hoje mais violentas ou mais indisciplinadas do que antes; o problema é que ‘têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos’.
‘Deixaram de ver os adultos como fontes de experiência e de ensinamento para os passarem a ver como uma fonte de incómodo. Isso leva-os à rebeldia’, afirmou.
Daí que, mais do que reformas dos códigos legislativos ou das normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade, admitindo Savater que ‘mais vale dar uma palmada, no momento certo’ do que permitir as situações que depois se criam.
Como alternativa à palmada, o filósofo recomenda a supressão de privilégios e o alargamento dos deveres.