E se o “Diário de Notícias” fosse um jornal a sério?

Ao seu proverbial pendor conservador e mesmo reaccionário que lhe valeu o epíteto de jornal oficioso do fascismo, junto agora um novo atributo à sua longa actividade de manipulação de consciências: a indigência intelectual. No artigo que hoje publicamos, João Alferes Gonçalves arrasa um texto publicado naquele diário que, como diz o Diário de Notícias, não passa de “um exercício de história contrafactual”!

O “Diário de Notícias” deu hoje à luz um texto com o qual diz querer fazer «um exercício de história contrafactual», que é, só por si, um conceito abstruso — fazer a história do que não aconteceu e talvez pudesse, eventualmente, ter acontecido se…

O «exercício» consiste em responder à pergunta «25 de Novembro: E se tivesse sido ao contrário?». Os pressupostos de que parte mostram que não se trata de um «exercício de história contrafactual», mas sim de uma pura e dura «contrafacção histórica».

O autor do texto omite qualquer referência a um golpe de Estado e considera que havia duas facções militares em confronto: uma a que chama «os moderados», outra a que chama «a Esquerda Radical» (com direito a maiúsculas, para dar a ideia de que era uma coisa institucionalizada).

Tento imaginar o então major Jaime Neves e mais umas dúzias de bem conhecidos capitães, coronéis e generais no papel de «moderados» e só consigo rir às gargalhadas.

O mesmo acontece quando leio na peça do “DN” que «a Esquerda Radical» era afecta ao PCP. Terá o autor do texto alguma ideia, mesmo aproximada, da influência das diversas forças políticas nas Forças Armadas entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro?

Idêntica pergunta para a taxativa afirmação de que o MRPP era «uma das excepções na extrema-esquerda, ou seja, a extrema-esquerda desalinhada com o PCP». Quererá o autor da contrafacção histórica identificar qual era a extrema-esquerda alinhada com o PCP? Em especial, no contexto do 25 de Novembro. Também seria útil identificar com quem estava o MRPP alinhado.

E que é feito, nesta história, do PRP? E da LUAR? E da UDP?

Uma contradição insanável do texto é começar por dizer que a «esquerda radical» militar era «afecta ao PCP» (um disparate monumental) para, dois parágrafos a seguir, afirmar que «a chamada “esquerda radical” rodeava no COPCON o respectivo chefe, Otelo Saraiva de Carvalho». O que equivale a dizer que Otelo era afecto ao PCP. Sem comentários.

O facto de o único confronto armado ter ocorrido quando os comandos de Jaime Neves cercaram o quartel da Polícia Militar de Mário Tomé não faz agitar nenhum neurónio?

É sabido que o PCP não tinha qualquer tipo de controlo sobre as unidades militares que estiveram envolvidas directamente no 25 de Novembro. É, igualmente, sabido que o PCP deu instruções a todas as suas organizações para não se envolverem em iniciativas disparatadas.

Apesar disso, o “DN” tem tido, sobre o 25 de Novembro, uma prática de revisionismo histórico com base em relatos fantasiosos mais do que enviesados.

Desta vez não se contenta em inventar o 25 de Novembro — vai mais longe e faz um «exercício» de invenção sobre a invenção.

Para a contrafacção ser completa, o “DN” não inclui qualquer depoimento de um dirigente do PCP, apesar de o textozinho não ser sobre o 25 de Novembro e sim sobre o que outros dizem que os malandros dos comunistas poderiam fazer, se…

Para mim, que sei o que se passou há 35 anos e vivo em 2011, há outros what ifs mais interessantes. Por exemplo: e se o “Diário de Notícias” fosse um jornal sério?

25 de Novembro de 2010

João Alferes Gonçalves
* Jornalista

  • Texto publicado no odiario.info

  • Testo publicado no Clube de Jornalistas.pt
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    EUA suspendem retirada de feridos graves do Haiti


    O Exército norte-americano suspendeu hoje os voos de retirada de feridos graves haitianos, à espera de uma decisão sobre quem paga os seus cuidados médicos.


    “Temporariamente suspendemos os voos de evacuação dos haitianos, mas temos meios de os retomar”, disse o capitão Kevin Aandahl, porta-voz da Transcom, unidade de gestão dos transportes do Pentágono, num comunicado enviado à France Presse.

    “Aparentemente, alguns Estados (norte-americanos) recusam-se a aceitar no seu território pacientes haitianos que precisam de cuidados pós-operatórios, e nós não podemos transportar se não nos deixam aterrar”, prossegue no mesmo texto.

    Alguns Estados, como a Florida, declinam o encargo dos custos dos cuidados prestados aos haitianos feridos na sequência do sismo de 12 de janeiro.

    O governador da Florida, Charlie Crist, pediu já oficialmente ao Governo Federal que participe nos custos dos cuidados prestados aos haitianos.