CARTA ABERTA AOS INCONFORMADOS ABSTENCIONISTAS

votartambém é preciso votar

Destinam-se estas linhas a contribuir para que as novas gerações vão tomando consciência do mundo que inevitavelmente irão encontrar amanhã. Será um mundo bastante diferente do atual, melhor em múltiplos aspetos, mas com riscos que é necessário conhecer para poderem ser encarados e superados.

Quando o autor destas linhas nasceu, há 75 anos, a esmagadora maioria das comunidades humanas estava privada dos mais elementares direitos. Na Europa, por exemplo, desmoronavam-se os últimos resquícios das débeis e incompletas democracias, herdeiras das grandes revoluções progressistas, a francesa e a soviética. Todas estas democracias ocidentais foram sendo paulatinamente substituídas por regimes autoritários e fascistas.

Mesmo as exceções comummente apontadas, como a do Reino Unido, não passam de uma farsa. Pergunte-se aos povos dominados pela coroa britânica que liberdades lhes eram permitidas na sua própria terra. Nenhumas. Na Índia, por exemplo, nem o sal das suas salinas podiam usar, pois era-se obrigado a comprar o sal que vinha do reino de Sua Majestade.

E o mesmo se poderá dizer dos E.U.A., outro espaço paladino da democracia, campeão dos direitos humanos, mas que só nos anos 70 do século passado, e depois de muita luta e de muito sangue, as minorias raciais tiveram acesso à plenitude dos direitos cívicos (Luther King foi assassinado em 1968).

E quem se pode esquecer do movimento sul-africano “One men, one vote”, dos milhares de presos, torturados e mortos no combate ao aparteid. Mandela foi solto em 1990 depois de 26 anos de prisão.

Também por cá quem se pode esquecer das mil dificuldades das nossas “Comissões Promotoras do Voto” do tempo do fascismo? Pretendiam apenas que os cidadãos se inscrevessem nos cadernos eleitorais, condição então indispensável para o exercício do mais elementar direito cívico, votar. É que na altura eram as autoridades do regime que organizavam os tais cadernos, anulando os nomes de eventuais opositores. E eram os inscritos, numa pequena percentagem do universo eleitoral que, com as conhecidas manipulações dos resultados, davam sempre as estrondosas vitórias aos detentores do poder absoluto.

Mas a luta dos povos pelas liberdades deu os seus fruto, que amadureceram, e hoje podemos considerá-las das maiores conquistas civilizacionais.

Na verdade contam-se hoje pelos dedos as moribundas ditaduras que ainda persistem, quase sempre agarradas a dependências religiosas medievais, também moribundas, muitas vezes de cariz dinástica mesmo em estados republicanos onde o poder foi passando de pais para filhos, anacronismos que as novas gerações repudiam.

Dir-se-á que vivemos num mar de rosas. De modo algum, mas, a generalizada democratização dos mais diversos povos constitui um passo gigante na história da humanidade. Passo irreversível, creio eu, mas que não dispensa o prosseguimento da luta pela sua manutenção e pelo seu aperfeiçoamento.

Verificamos, no entanto, uma progressiva indiferença pela mais elementar regra da convivência democrática, a escolha dos governantes pelo voto, o que não deixa de ser dececionante para quem tantos riscos correu e tantos sacrifícios viveu para que todo o cidadão possa exercer, livremente, este que é o mais elementar dos direitos cívicos.

Na verdade este fenómeno vai tendo dimensões alarmantes. O nosso representante máximo, por exemplo, foi eleito por cerca de 25% do eleitorado, uma vez que a abstenção rondou os 50% e ele foi eleito por 51% dos que votaram. Para a Assembleia da República, que designou o atual governo, hoje contestado em todos os quadrantes políticos, a abstenção rondou os 45 %.

E, claro está, os que votam nos partidos de direita, que se vão alternando uns aos outros para fazerem o mesmo ou pior, esses abstêm-se menos. Por outras palavras, o eleitorado mais ignorante, mais influenciável, mais místico e portanto menos racional, vota. O eleitorado mais inconformado, por vezes até revoltado e sem dúvida o mais esclarecido, não vota, ou vota menos!

É triste ver jovens, e não só, que não são fascistas, nem conservadores, nem reacionários, nem racistas, nem machistas, cidadãos já libertos de crenças religiosas, alhearem-se da política e dos seus deveres cívicos.

É dececionante ouvir frases como estas: a democracia já deu o que tinha a dar; os partidos e os políticos são todos iguais, querem é tacho; a minha política é o trabalho; o meu voto é que já não levam; já nada vale a pena; não há soluções para a saída da atual crise; o capitalismo dominará eternamente.

Vale a pena perguntar a estes inconformados mas abstencionistas: então o que é que querem? Conhecem algum sistema melhor do que o democrático em que o povo pode escolher livremente os seus governantes? Acham que não deve haver governo e governantes? Pensam ser melhor sermos conduzidos, como carneiros, por um iluminado caído do céu ou, o que é mais terreno, imposto pelos que se acham donos do mundo?

Haverá sistema político melhor que o democrático? Qual? Haverá nos dias de hoje alternativa que não passe pela vontade consciente das massas populares, incluindo a mobilização eleitoral? Qual? Será mesmo verdade que os partidos e os políticos são de facto todos iguais? Será que só a direita tem cabeças pensantes?

Mas qual a razão desta indiferença que, na prática, se traduz pela “eterna” governação pela direita? É um designo divino, aqui, em Espanha, na Grécia e por aí fora? Sendo enorme o descontentamento popular por estas estafadas políticas, que só interessam ao grande capital, por que razão continuamos a dar-lhes rédea solta? Porquê que a malta se abstém?

É mais que evidente que o grande capital, que de facto ainda nos domina, é o grande beneficiário desta mentalidade fatalista e abstencionista. Fartam-se de rir da gente sempre que há eleições, pois ganham sempre. Mas por que razão somos nós, a esquerda, a esmagadora maioria, quem lhes faculta a vitória?

A razão desta incongruência deve-se à força penetrante da ideologia dominante.

De facto o imperialismo teve na apologia dos direitos humanos uma arma de grande eficácia no combate a regimes de partido único, mas isso já faz parte da história. Mas, como afirmou Marx: “o capitalismo deita à terra as sementes que o hão de destruir”. E Lenine: “a luta faz-se nas ruas, nas fábrica e também nas instituições burguesas”.

E é assim que o capitalismo encontrou nos sistemas democráticos burgueses o sistema político mais adequado aos seus interesses, desde que o eleitorado opte pelos seus agentes, quantas vezes mascarados em partidos com designações de esquerda como socialistas, social-democratas, populares, cristãos ou democrático qualquer coisa (o CDS por exemplo é o Centro Democrático Social), tática enganosa que nada tem de novo. Hitler deu ao seu partido o nome de Nacional Socialista, abreviadamente partido Nazi.

Mas nem esta fraudulenta apropriação de nomes para os seus partidos nem o estafado e não menos fraudulento Marketing com as promessas que depois não se cumprem, são hoje a sua principal arma. Muito mais importante é o ambiente ideológico fabricado e excretado pela comunicação social, que nos massacra diariamente.

Agora já não glorificam tanto o capitalismo neoliberal, ainda há pouco triunfante, uma vez que se torna politicamente incorreto, mas sim o da sua inevitabilidade, com os seus naturais altos e baixos, igualmente inevitáveis. E assim criam e alimentam o estado de espírito que o período de crise exige, fatalista, utilizando exatamente os mesmos argumentos acima descritos: a democracia já deu o que tinha a dar, os partidos e os políticos são todos iguais, querem é tacho, votar já a nada conduz, havemos de sair da atual crise, temos ordeiramente que esperar que ela passe, pois o capitalismo é eterno.

Esta mentalização é pedra fundamental da ideologia dominante na fase atual, convencer parte substancial do eleitorado de que não há qualquer saída, que não há alternativa à alternância, votar é perder tempo E o que é dramático é que muita gente de esquerda acaba também por ser influenciada. É comum ouvir frases como estas: o que é preciso é acabar com a democracia burguesa; como? Só é válida e verdadeira democracia, a popular ou a operária;

E os que não votam vão aumentando de eleição para eleição, fazendo o frete ao grande capital e aos seus agentes, que depois se vangloriam: que o povo deixe de votar, depois que não se queixe; os governos têm toda a legitimidade democrática, e de facto têm-na. E se houver grande barulho lá está a polícia de choque para impor a ordem. E se necessário arranjam-se meia dúzia de desordeiros ou provocadores para partirem umas montras ou pegarem fogo a uns carros para justificar medidas repressivas e culpar os comunistas.

A alternativa à democracia é a ditadura. E esta é uma solução a que o capitalismo, ao longo da história recente, não tem tido qualquer pejo em impor aos povos, quando entra em crises económicas graves como a atual. Mas hoje os tempos são outros. Já não lhe é tão fácil…

A democracia, que no nosso país foi conquistada em 1974, é um bem precioso, consagrado na Constituição de 76, e que deve ser acerrimamente defendido, porque apesar de desfigurada pelas sucessivas alterações, consagra princípios democráticos que a reação não se atreve a retirar.

No entanto, cuidado, se as forças antidemocráticas ganharem força institucional a própria Constituição corre sérios perigos.

E se o essencial da luta é a mobilização popular, nas ruas, nas empresas, nas escolas, não nos podemos alhear da luta na própria Assembleia da República. Se a reação se tem servido dela para desenvolver as suas políticas, é tempo de lhes cortarmos as garras.

Dissemos no início destas linhas que pairam perigos no horizonte. E quem os vai enfrentar são os que hoje são jovens. O futuro é deles. Não é cedo para começar a criar as indispensáveis condições para melhor os encarar e lhes dar as mais adequadas respostas. E estas passam necessariamente por decisões políticas, sancionadas pelos povos.

É tempo de correr com a chamada classe política, conjuntos de grupos “políticos”, de ociosos mas ambiciosos, que se alternam no poder. Afinal nada mais são que marionetes dos grandes interesses económicos, que depois lhes dão umas côdeas. Está mais que provado que esta gente só pensa e age de acordo com os seus mesquinhos interesses.

É indispensável que todos aqueles que se colocam à esquerda, aqueles que engrossam as grandes manifestações, aqueles que fazem greve, aqueles que protestam contra o rumo do nosso país, os desiludidos e os inconformados, tomem consciência dos seus deveres cívicos e não fiquem em casa quando são chamados a votar.

Dia 29 de Setembro 2012

VOTA CDU

Com toda Confiança

Manuel Souto Teixeira

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Hipocrisia

Anda por ai muita “gente” com argumentos (que de argumento não tem nada), afim desvalorizarem a marcha de 23 Maio, da CDU, aquela em que estiveram 85.000 pessoas, que sabem para onde caminham… Uma marcha nacional, em prol de quem trabalha e de quem todos dias assiste ao roubo e tentativas de roubo dos seus direitos, a fim de serem beneficiados muito poucos, mas em muito…
Se achassem que era uma grande mobilização é que seria de admirar… Se no acto de votar fosse avaliado as politicas económicas e sociais que este governo tem vindo aplicado, de certeza que só tinham 0,3% dos votos, percentagem essa que representa aqueles que têm ganho com estas políticas, que seriam os banqueiros e os senhores do capital… No entanto teríamos que acrescentar todos aqueles que têm ganho com o PS no governo, todos aqueles que tiveram “direito” a um lugarzinho junto de qualquer Ministério ou empresa dependente do estado, consequentemente dependente deste governo… Lugares que não foram obtidos através da competência, nem do “saber”; Foram obtidos através de interesses e de objectivos que têm como fim controlar tudo e mais alguma “coisa”… Infelizmente, muitos trabalhadores já se esqueceram dos slogans do Sócrates, contra Santana Lopes, em que o PS acusava Santana de arranjar “tachos” para os amigos, dizendo que era uma vergonha, no entanto após ganharem as eleições, o PS e Sócrates num mês arranjou mais “tachos” para os amigos do que qualquer governo, durante um mandato inteiro… Já se esqueceram das palavra de ordem dos Socráticos de que havia “gente” a mais nos ministérios e etc? Pois acabaram com muitos lugares, puseram a “andar” pessoas, não interessando saber se eram úteis e faziam falta, só interessava saber que não eram das cores preferidas… depois sorrateiramente nomearam mais, muitos mais, para esses cargos e até aumentaram os números de lugares… Num País “civilizado”, sendo ou não verdade, um primeiro-ministro sério já se tinha DEMITIDO há muito tempo… mas infelizmente estamos num pais de Felgueiras e companhias…