Para entenderem o que se passa na Ucrânia

O EXEMPLO DA UCRÂNIA E O RENASCER DOS MOVIMENTOS FASCISTAS NA EUROPA – por ERIC DRAITSER *

20 de Fevereiro de 2014 às 12:30

A violência nas ruas da Ucrânia é muito mais do que uma manifestação da ira popular contra um governo. É, ao invés, simplesmente o exemplo mais recente da ascensão da mais insidiosa forma de fascismo que a Europa já viu desde a queda do Terceiro Reich.

Os últimos meses assistiram a protestos regulares da oposição política ucraniana e seus apoiantes – protestos ostensivamente em resposta à recusa do presidente Yanukovich de assinar um acordo comercial com a União Europeia, encarado por muitos observadores políticos como o primeiro passo rumo à integração europeia. Os protestos foram razoavelmente pacíficos até 17 de Janeiro, quando manifestantes armados com paus, capacetes e bombas improvisadas desencadearam uma violência brutal sobre a polícia, atacando edifícios governamentais, batendo em quem fosse suspeito de simpatias pelo governo e provocando destruição generalizada nas ruas de Kiev. Mas quem são estes extremistas violentos e qual é a sua ideologia?

A formação política conhecida como «Pravy Sektor» («Sector Direita») é basicamente uma organização chapéu para um certo número de grupos ultra-nacionalistas (ler: fascistas) incluindo apoiantes dos partidos «Svoboda» («Liberdade»), «Patriotas da Ucrânia», «Ukrainian National Assembly – Ukrainian National Self Defense» (UNA-UNSO) e «Trizub». Todas estas organizações partilham uma ideologia comum que, entre outras coisas, é veementemente anti-russa, anti-imigrantes e anti-judia. Além disso, partilham uma reverência comum pela chamada «Organização de Nacionalistas Ucranianos», liderada por Stepan Bandera, a que pertenciam os infames colaboradores dos nazis que combateram activamente contra a União Soviética e cometeram algumas das piores atrocidades durante a II Guerra Mundial.

Apesar de forças políticas ucranianas, oposição e governo, continuarem a negociar, uma batalha muito diferente está a ser travada nas ruas. Utilizando a intimidação e a força bruta, mais típica dos «Camisas castanhas» de Hitler ou dos «Camisas negras» de Mussolini do que de um movimento político contemporâneo, estes grupos conseguiram transformar um conflito sobre política económica e alianças políticas do país numa luta existencial pela própria sobrevivência da nação que estes chamados «nacionalistas» afirmam amar tão ardentemente. As imagens de Kiev a arder, as ruas de Lvov cheias de brutamontes e outros exemplos assustadores do caos no país, ilustram sem sombra de dúvida que a negociação política com a oposição do Maidan (a praça central de Kiev e centro dos protestos) já não é a questão central. É, antes, a questão de apoiar ou rejeitar o fascismo ucraniano.

Pelo seu lado, os EUA lançaram-se no apoio à oposição, sem considerar o seu carácter político. No princípio de Dezembro de 2013, membros do «establishment» dirigente dos EUA, tais como John McCain e Victoria Nuland, foram vistos no Maidan a apoiar os manifestantes. Entretanto, quando o verdadeiro rosto desta da oposição se tornou evidente, os EUA e a classe dominante ocidental e sua máquina dos «media» pouco fizeram para condenar o levantamento fascista. Ao invés disso, os seus representantes encontraram-se com representantes do «Sector Direita» e consideraram que não constituíam uma «ameaça». Por outras palavras, os EUA e seus aliados deram aprovação tácita à continuação e proliferação da violência em nome do seu objectivo final: a mudança de regime.

Numa tentativa de arrancar a Ucrânia da esfera de influência russa, a aliança EUA-UE-NATO aliou-se – e não é a primeira vez que o faz – com fascistas.

Como se sabe, durante décadas, dezenas de milhares de pessoas na América Latina foram feitas desaparecer ou foram assassinadas por forças militares fascistas armadas e apoiadas pelos Estados Unidos. Os «mujahideen» do Afeganistão, que depois se transformaram na Al Qaeda, uma «rede» também ideologicamente reaccionária e extremista, foram organizados e financiados pelos Estados Unidos com o objectivo de desestabilizar a Rússia. Há, igualmente, os penosos exemplos da Líbia e, mais recentemente, da Síria, onde os Estados Unidos e seus aliados financiam e apoiam extremistas jihadistas contra um governo que se recusa a alinhar com os EUA e Israel. Há aqui um padrão perturbador que não tem sido compreendido por observadores políticos: os Estados Unidos a fazerem causa comum com extremistas de direita e fascistas para obterem ganhos geopolíticos.

A situação na Ucrânia é profundamente perturbadora porque representa uma conflagração política que poderá muito facilmente dilacerar o país, menos de 25 anos depois de se tornar independente da União Soviética. Contudo, há outro aspecto igualmente perturbador na ascensão do fascismo naquele país – ele não é um caso único.

Ameaça fascista por todo o continente europeu

A Ucrânia e a ascensão do extremismo de direita não pode ser vista, muito menos entendida, isoladamente. Deve, ao invés, ser examinada como fazendo parte de uma tendência crescente através da Europa (e na verdade do mundo) – uma tendência que ameaça os próprios fundamentos da democracia.

Na Grécia, a austeridade selvagem imposta pela «troika» (FMI, BCE e Comissão Europeia) arruinou a economia do país, levando a uma depressão tão má, se não pior, do que a Grande Depressão nos Estados Unidos nos anos 1930. É com este pano de fundo de colapso económico que o partido «Aurora Dourada» cresceu até se tornar o terceiro maior partido político do país. Perfilhando uma ideologia de ódio, o «Aurora Dourada» – efectivamente um partido nazi que promove o chauvinismo anti-judaico, anti-imigrante e anti-feminista – é uma força política que o governo de Atenas considerou ser uma grave ameaça ao próprio tecido da sociedade grega (NR) . Foi esta ameaça que levou o governo a ordenar a detenção dos membros da direcção do partido, depois de um nazi do «Aurora Dourada» ter esfaqueado um «rapper» anti-fascista. Atenas ordenou uma investigação ao partido, embora os resultados desta investigação e o respectivo processo permaneçam pouco claros.

O que torna o «Aurora Dourada» uma ameaça tão insidiosa é o facto de, apesar da sua ideologia nuclear ser nazi, a sua retórica anti-UE e anti-austeridade atrair muita gente, numa Grécia economicamente devastada. Tal como muitos movimentos fascistas no século XX, o «Aurora Dourada» transforma em bodes expiatórios os imigrantes, os muçulmanos e os africanos, responsabilizados por muitos dos problemas que os gregos enfrentam. Em circunstâncias económicas terríveis, tal ódio irracional torna-se atraente, como se fosse uma resposta à questão de como resolver problemas da sociedade. Na verdade, apesar de líderes do «Aurora Dourada» estarem presos, outros membros do partido ainda estão no Parlamento, ainda concorrem a cargos como à presidência do Município de Atenas. Embora uma vitória eleitoral seja improvável, nova demonstração de força nas eleições tornará muito mais difícil a erradicação da ameaça fascista na Grécia.

Se este fenómeno estivesse confinado à Grécia e à Ucrânia, não constituiria uma tendência continental. Contudo, infelizmente, vamos assistindo à ascensão, embora menos abertamente fascista, de partidos políticos de extrema-direita por toda a Europa. Na Espanha, o Partido Popular, no governo e pró austeridade, avançou com leis draconianas para restringir as manifestações e a liberdade de palavra, aprovando e fortalecendo, ao mesmo tempo, tácticas policiais repressivas. Em França, o partido da Frente Nacional, de Marine Le Pen, que publicamente faz dos imigrantes muçulmanos e africanos os bodes expiatórios da crise conquistou aproximadamente 20 % dos votos na primeira volta das eleições presidenciais. Analogamente, na Holanda, o Partido pela Liberdade – que promove políticas anti-muçulmanas e anti-imigrantes – cresceu a ponto de se tornar o terceiro maior partido no Parlamento. Por toda a Escandinávia, partidos ultra-nacionalistas, outrora totalmente irrelevantes e obscuros, são agora actores significativos em eleições. Estas tendências são no mínimo, muito preocupantes.

Também deve ser salientado que, para além da Europa, há um certo número de formações políticas quase-fascistas que são, de uma maneira ou de outra, apoiadas pelos Estados Unidos. O golpe de direita que derrubou os governos do Paraguai e das Honduras foram tacitamente e/ou abertamente apoiados por Washington no seu objectivo aparentemente infindável de suprimir a esquerda na América Latina. Naturalmente, também deveria ser lembrado que o movimento de protestos na Rússia foi encabeçado por Alexei Navalny e seus seguidores nacionalistas, que adoptam uma ideologia racista e anti-muçulmana que encara imigrantes do Cáucaso russo e de outras antigas repúblicas soviéticas como inferiores aos «russos europeus». Estes e outros exemplos pintam um retrato muito feio de uma política externa norte-americana que tenta utilizar a adversidade económica e a reviravolta política para estender a hegemonia dos EUA por todo o mundo.

Na Ucrânia, o «Sector Direita» retirou a luta política da mesa de negociação para o transformar em combate de  rua, numa tentativa de cumprir o sonho de Stepan Bandera – uma Ucrânia livre da Rússia, de judeus e de outros cidadãos encarados como «indesejáveis». Animados pelo apoio contínuo dos EUA e da Europa, estes fanáticos representam uma ameaça mais grave para a democracia do que Yanukovich e o seu governo pró-russo. Se a Europa e os Estados Unidos não reconhecerem esta ameaça, ainda embrionária, quando o fizerem poderá ser demasiado tarde.

 (NR) É muito discutível que o actual governo de Atenas tenha esse entendimento. A sua atitude é, antes, de conivência passiva e omissão. Forças policiais gregas pouco ou nada fazem para reprimir o «Aurora Dourada», só actuando em casos extremos.

(*) Analista geopolítico independente residente em Nova York.

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Carta do Infante Dom Pedro a Dom Duarte [1426] – Um documento atual

Carta enviada de Bruges, pelo Infante Dom Pedro a Dom Duarte, em 1426 (resumo feito por Robert Ricard e constante do seu estudo «L’Infant D. Pedro de Portugal et “O Livro da Virtuosa Bemfeitoria”, in Bulletin des Études Portugaises, do Institut Français au Portugal, Nova série, tomo XVII, 1953, pp. 10-11).

«O governo do Estado deve basear-se nas quatro virtudes cardeais e, sob esse ponto de vista, a situação de Portugal não é satisfatória. A força reside em parte na população; é pois preciso evitar o despovoamento, diminuindo os tributos que pesam sobre o povo.

Impõem-se medidas que travem a diminuição do número de cavalos e de armas.
É preciso assegurar um salário fixo e decente aos coudéis, a fim de se evitarem os abusos que eles cometem para assegurar a sua subsistência.

É necessário igualmente diminuir o número de dias de trabalho gratuito que o povo tem de assegurar, e agir de tal forma que o reino se abasteça suficientemente de víveres e de armas; uma viagem de inspecção, atenta a estes aspectos, deveria na realidade fazer-se de dois em dois anos.

A justiça só parece reinar em Portugal no coração do Rei [D. João I] e de D. Duarte; e dá ideia que de lá não sai, porque se assim não fosse aqueles que têm por encargo administrá-la comportar-se-iam mais honestamente. A justiça deve dar a cada qual aquilo que lhe é devido, e dar-lho sem delonga. É principalmente deste último ponto de vista que as coisas deixam a desejar: o grande mal está na lentidão da justiça. Quanto à temperança, devemos confiar sobretudo na acção do clero, mas ele [o Infante D. Pedro] tem a impressão de que a situação em Portugal é melhor do que a dos países estrangeiros que visitou.

Enfim, um dos erros que lesam a prudência é o número exagerado das pessoas que fazem parte da casa do Rei e da dos príncipes. De onde decorrem as despesas exageradas que recaem sobre o povo, sob a forma de impostos e de requisições de animais. Acresce que toda a gente ambiciona viver na Corte, sem outra forma de ofício.»

Quase 600 anos depois nada parece ter mudado…

Teoria para a construção da pirâmides do Egipto

Uma teoria apresentada por um engenheiro inglês para a construção das pirâmides do Egipto.

Normalmente quando falam sobre essa teorias de como as pirâmides foram construídas soam como teorias malucas, conspiratórias, mas esta faz muito sentido, até porque se isso for verdade, é uma grande descoberta para a atualidade, vai ajudar a entender melhor como tal sociedade vivia, e como pensavam.

O que sugeriam até o momento, é que as pirâmides foram construídas a partir de uma pequena base, e que assim iriam acrescentando blocos gigantes pela parte de fora, ou seja,  construiriam as bases, encheriam de entulhos os espaços vazios, e usariam rampas para levar os próximos blocos. Convenhamos que se isso fosse a realidade, seria inviável, e até mesmo falta de planejamento por parte dos engenheiros da época, comparando com a magnitude da obra final.

O que o engenheiro Peter James sugere é uma ideia realmente impressionante, e muito interessante. Ele que trabalha na restauração das pirâmides há mais de 20 anos, teve muito tempo para pensar sobre isso, e também teve acesso para entender como ela foi montada, então ele chegou a conclusão de que a melhor forma para montar os 2 milhões de blocos não seria por rampas, mas pela utilização da água, até porque é o que eles tinham de mais abundante, tirando a areia, é óbvio.

Enfim, assistam aos vídeos para entenderem melhor.

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Um caminho alternativo – opção inadiável

João Ferreira
Público – 17/02/2014

Os subscritores do programa da troika pretendem perpetuar a submissão e a dependência do país.

Vivemos um tempo de graves e inadiáveis opções. Um tempo em que perigos evidentes de retrocesso civilizacional coexistem com possibilidades de avanço e de transformação progressista. Em Portugal, na Europa e no mundo.

Em nenhum caso poderemos esperar que sejam as políticas e os protagonistas que nos trouxeram ao desastre que venham agora resolver os problemas que criaram.

Por esta cristalina razão, as próximas eleições para o Parlamento Europeu revestem-se de uma enorme importância.

No horizonte pairam sérias ameaças. Nos últimos anos, sob o espectro de uma crise na qual têm óbvia responsabilidade, direita e social-democracia (incluindo os seus representantes nacionais) aprovaram no Parlamento Europeu, no Conselho e nos parlamentos nacionais um conjunto de instrumentos da maior gravidade. O presidente da Comissão Europeia referiu-se a uma “revolução silenciosa”, o que dá conta, por um lado, da magnitude do processo e, por outro lado, da forma sub-reptícia como tem vindo a ser concretizado, furtando-se ao debate e ao escrutínio público.

Numa irresponsável mas consciente fuga em frente, as políticas que nos conduziram ao desastre são apresentadas como a solução para lhe fazer face – mas, agora, em dose reforçada.

O Pacto para o Euro Mais, o Semestre Europeu, a Governação Económica e muito especialmente o Tratado Orçamental, apontam um objectivo claro e uma estratégia para o alcançar. O objectivo é o de impor o retrocesso social e civilizacional, prolongar a sangria de recursos dos países da periferia, forçar uma ainda maior concentração da riqueza. A estratégia a seguir, como esclareceu oportunamente a chanceler alemã, passa por garantir que “mudando os governos, não muda a política”. Para tal, promove-se o esvaziamento das estruturas de poder mais próximas dos cidadãos, que estes (melhor) controlam, e a inaudita concentração do poder político e económico, num directório de potências, hegemonizado pela Alemanha, e em instituições supranacionais, como a Comissão Europeia, que passam a ter nas mãos decisões fundamentais da vida de um país. Política e opções orçamentais, emissão de dívida ou reformas de política económica, por exemplo, passam a estar sujeitas ao escrutínio prévio e à aprovação destas entidades externas. Caso as suas directrizes não sejam acatadas, os países “incumpridores” estão sujeitos à aplicação de pesadas sanções “automáticas”.

Estamos perante um projecto de domínio político e económico de indisfarçável recorte neocolonial, bem envolto na estafada retórica do “mais Europa”. Um projecto que visa inscrever na pedra as políticas associadas aos programas de intervenção UE-FMI.

É este o projecto que – no Parlamento Europeu, no Conselho e na Assembleia da República – PSD, CDS e PS subscreveram e defendem.

É à luz deste projecto que os subscritores do programa da troika pretendem, para lá de Maio, perpetuar a submissão e a dependência do país. Uns e outros sabem bem que, com troika ou sem troika, a vigência destes instrumentos a que amarraram o país criará as condições para eternizarem a política da troika.

É também a resposta a este projecto e as estas intenções o que estará em causa nas próximas eleições.

Este não é, evidentemente, um caminho inevitável. Opõe-se-lhe, sem ambiguidades, um rumo alternativo. Um rumo assente no respeito pela vontade e participação populares; que recupere o comando político e democrático do processo de desenvolvimento, com a subordinação do poder económico ao poder político e a afirmação do papel do Estado na economia. Um rumo que tem na propriedade e gestão públicas de sectores estratégicos da economia condição para um desenvolvimento soberano. Um rumo que valorize o trabalho e os trabalhadores através de uma justa distribuição do rendimento assente no aumento dos salários, na promoção do emprego e do trabalho com direitos. Um rumo que salvaguarde e reforce os serviços públicos, a protecção social, o combate à pobreza e à exclusão. Um rumo que promova a convergência no progresso das normas sociais e ambientais, com a institucionalização do princípio da não-regressão; que promova o desenvolvimento económico e o progresso social no quadro de uma relação sustentável e harmoniosa entre o homem e a Natureza; que rejeite o militarismo e a guerra e promova a solução pacífica dos conflitos e o respeito pelo direito internacional. Um rumo, enfim, capaz de abrir caminho à construção de novas formas de cooperação entre Estados soberanos, orientadas para o desenvolvimento social e económico mutuamente vantajoso, respeitador da soberania nacional nos seus mais variados aspectos, da independência dos povos, dos valores da justiça social, da paz e da solidariedade.

Eurodeputado do PCP

Vende-se, bom preço

Vendem-se direitos humanos e língua portuguesa, base de licitação de 133,5 milhões de euros, depositados no Banif. Quem dá? Pás!, vendido à Guiné-Equatorial.

Vende-se inocência para pequenos e grandes devedores fiscais. Bom negócio, oferta de juros e coimas. Quem quer? Arrematado: encaixe de 1,3 mil milhões de euros, desconto de 500 milhões. Siga para bingo.

Promoção especial para passageiros frequentes para a Suíça: vende-se regularização de dinheiro não declarado no estrangeiro. Lavagem automática por 7,5% do valor declarado. Quantos são? Fechado: por 200 milhões de euros branqueamos 2,7 mil milhões. Técnica Jorge Jesus: limpinho, limpinho. Vendem-se monopólios. Inclui rendas excessivas. Aeroportos? Arrematado, três mil milhões, para os franceses da Vinci. Eletricidade? Aqueles senhores ali a Oriente, 2,7 mil milhões. Águas, ninguém quer? Uma televisãozinha?…

Vende-se salvo-conduto para entrar e circular livremente no espaço europeu. “Vistos de ouro”. Custa 500 mil euros. Vem com casa incluída, muito cachet, videoporteiro, vista mar.

Vendem-se Mirós. 84 quadros e uma escultura. Oportunidade única, antigo dono faliu. 36 milhões de euros e não se fala mais nisso. Saem do país pela porta do cavalo, garantimos sigilo total. Vendem-se comemorações dos 40 anos do 25 de abril. Inclui patrocínio da Assembleia da República. Bem negociado pode incluir naming de bancadas… parlamentares.

Vende-se justiça. Tribunais na hora. Só para grandes investidores, dá-se preferência a estrangeiros. Vendem-se impostos baixos para empresas, inclui benefícios fiscais para grandes empresas. Só para VIP. Custo: 70 milhões de euros no primeiro ano, 220 milhões nos seguintes.

Vendem-se hotéis de cinco estrelas falidos a fundos de restruturação. Preço: um euro. Inclui dívidas a bancos, que podem ou não ser pagas. Vende-se reforma da administração local, inclui alquimia secreta que transforma 308 municípios em 308 municípios. Preço: fusão das freguesias. Chave na mão.

Vende-se jogo de tabuleiro. Com as peças do programa cautelar, jogam os financeiros; com as peças da saída limpa, jogam os políticos. Possibilidade de incluir vitória eleitoral. Contraindicação: o uso irrefletido pode afetar o financiamento do Estado.

Vende-se Constituição da República, oferece-se Tribunal Constitucional. Vendem-se contratos swap, contratos de PPP, contratos de securitização de dívidas. Custo: rasgar contratos com pensionistas.

Vendem-se dívidas da Madeira. Paz com Angola. Subida da idade de reforma. Vendem-se referendos. Espiral recessiva com prazo de validade ultrapassado. Vendem-se cortes nas gorduras no Estado, fundações, institutos e empresas públicas (aviso: a gerência não se responsabiliza pela sua efetiva existência). Vende-se quinquilharia, preço da chuva: guiões de reforma do Estado, reforma da Administração Pública, acordos no arco de governação, refundações e redefinição das funções do Estado.

Vende-se austeridade. Custo: uma geração. Pagamento em recibos verdes. Vende-se ilusão de ultrapassagem da crise. Custo: 130% de dívida pública. Vendem-se anéis como se não fossem dedos, corpo como se não fosse a alma, palavras como se não fosse a palavra. Compra-se: submarinos, estradas vazias, bancos falidos e dívida pública cara. Sem devolução. Paz? Pás!

Pedro Santos Guerreiro

Expresso 15-02-2014

Eis para que sevem as actuais avaliações de desempenho

AVALIA~166In Jornal Publico (jvmalheiros@gmail.com)

A avaliação individual de desempenho como instrumento de repressão.

Se fosse preciso uma prova do controlo que a extrema-direita económica exerce sobre a sociedade e de como se apoderou do debate político e impõe a sua agenda mediática, bastaria ver como um dos seus representantes, o ministro Pedro Mota Soares, pôs toda a gente a discutir a melhor maneira de despedir trabalhadores, apesar de o principal problema que afecta o país ser o desemprego.

No espaço de poucos dias, saber “despedir bem” passou a ser uma competência fulcral para as empresas portuguesas e a lacuna neste “saber” o grande problema da economia nacional. O Governo lembrou-se assim de definir uma lista hierárquica de critérios que devem servir para escolher os trabalhadores a despedir em caso de extinção de posto de trabalho e definiu como primeiro critério a “avaliação de desempenho”. A lista de critérios destina-se apenas a dar uma aparência de objectividade a algo que está sujeito à mais absoluta arbitrariedade. Mas é espantoso como os próprios sindicatos se sentem constrangidos na sua argumentação pela aparente tecnicidade da expressão “avaliação de desempenho”. De facto, a “avaliação de desempenho” apenas se encontra no topo desta lista por ser algo que permite todas as arbitrariedades às organizações, por restringir direitos aos trabalhadores e por ser, de uma forma geral, um instrumento de repressão das liberdades nas empresas, ao gosto da gestão moderna. E não por se revelar uma ferramenta de gestão das organizações mais justa ou mais geradora de inovação e de eficiência.

 O recurso à “avaliação individual de desempenho” standardizada serve apenas para que empresários, gestores ou capatazes possam tomar decisões de despedimento ou recompensa de trabalhadores motivadas por razões pessoais ou políticas e as possam justificar com ar inocente apontando para uma tabela Excel. Na prática, a “avaliação individual de desempenho” serve, antes de mais, como ferramenta de divisão entre trabalhadores, tornando evidente que todos eles estão a concorrer uns com os outros e que uma diferença de umas décimas numa pontuação pode ser a diferença entre manter o emprego ou ir para a rua. Não é por acaso que esta avaliação de desempenho é sempre individual mesmo quando só faria sentido avaliar equipas: o objectivo é impedir a união de trabalhadores em torno de interesses comuns. Não é por acaso que as consultoras que realizam estas “avaliações” incentivam as empresas a criar níveis salariais tão diferenciados quanto possível. O propósito é que cada trabalhador acabe por ficar sozinho numa “classe” profissional onde não poderá encontrar solidariedades. A receita é velha: dividir para reinar. Esta “avaliação” promove a concorrência entre trabalhadores, em vez da cooperação, a rivalidade, em vez do trabalho de equipa, a delação, em vez da partilha de informação, a dissimulação de erros, em vez da sua correcção. Não o faz por acaso. É esse o seu objectivo. Não a eficiência ou a excelência da organização. Com o pretexto de que a seriação promove a excelência, a avaliação individual de desempenho promove a desigualdade. É por isso que só se admite determinado número de trabalhadores em cada nível. É a táctica “escolha de Sofia”: o chefe de uma secção deve criar um ranking com todos os trabalhadores da sua secção, ordenados numericamente, mesmo quando isso não faz sentido. Em vez de uma equipa, cria-se uma fila indiana que representa a cadeia alimentar em vigor. A “avaliação” pune o absentismo em termos objectivos, o que significa que regista as faltas, mesmo quando estas são dadas por razões legítimas e legais – como uma baixa de maternidade ou a redução de horas concedidas aos trabalhadores-estudantes. A “avaliação” visa tornar evidente aos trabalhadores que estão todos a concorrer uns com os outros

 O principal problema da “avaliação individual de desempenho”, porém, é outro. É que a avaliação não faz apenas uma análise quantitativa e qualitativa do trabalho realizado (o que não seria fácil só por si), mas inclui também uma componente “comportamental”. Para ter uma boa avaliação é importante ser “positivo” (o que significa oferecer as suas ideias mas nunca criticar as ideias do chefe), ser “construtivo” (o que significa nunca criticar as opções da organização), ser um “team player” (o que significa obedecer às instruções mais cretinas que venham de cima e não sonhar em ter qualquer tipo de actividade sindical), estar “disponível” (o que significa fazer horas extraordinárias sem compensação), “vestir a camisola” (o que significa esconder ilegalidades cometidas pela organização), etc., etc..

O que está em causa aqui não é a avaliação em si. Todos os responsáveis por organizações avaliam os seus trabalhadores. Mas fazem-no em geral aceitando as naturais diferenças entre as pessoas e sem obrigar toda a hierarquia a uma prática indigna de vigilância e delação institucionalizada e sem criar um clima de medo. O problema da “avaliação individual de desempenho” de que a direita gosta é o seu carácter impessoal e totalitário. Não os objectivos que diz pretender.

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