Janela sobre as ditaduras invisíveis

A mãe abnegada exerce a ditadura da obrigação
O amigo solícito exerce a ditadura do favor
A caridade exerce a ditadura da divida
A liberdade de mercado permite-te aceitar os preços que te impõem
A liberdade de opinião permite-te escutar os que opinam em teu nome
A liberdade de eleição permite-te escolher o molho, com que vais ser comido

Eduardo Galeano

Um dia, mais tarde ou mais cedo, vai saber-se que a crise actual foi decidida num dos muitos centros de poder oculto espalhados pelo mundo.

Um dia, alguém tem acesso a documentos de uma reunião de um clube privado tipo Bilderberg, a uma inconfidência por parte de uma fonte género Trilateral, a uma acta redigida e assinada por mãos invisíveis, e lá virá a lume a criação e implantação de uma estratégia da crise para acabar de vez com os direitos conquistados pelos assalariados desde a revolução industrial, para exterminar os direitos humanos de cariz social.

Porque quanto a esta crise as informações mais recentes revelam que a par da extinção de milhões de empregos e postos de trabalho, do aumento brutal do desemprego e da precariedade, do congelamento ou mesmo da redução de salários e pensões, do extermínio de subsídios sociais, do empobrecimento geral das classes média e média baixa, a par de toda esta desolação que se abateu sobre o mundo, “o que os mercados e a economia destruíram em 2008 foi reconstruído em 2009”. E assim, nos termos do relatório mundial de riqueza, elaborado pelo Merrill Lynch e pela Capgemini, não só passou a haver mais ricos no mundo, como as fortunas dos mais ricos dispararam em plena crise. E desse modo, o número de particulares com grandes fortunas aumentou 17,1%, para dez milhões de pessoas, em 2009 face ao ano anterior. E a riqueza das dez milhões de pessoas com mais de um milhão de dólares para investir subiu 18,9% para os 39 biliões de dólares em 2009.

Um dia, mais cedo ou mais tarde, alguém vai desvendar o mistério. Resta saber se a descoberta ainda virá a tempo da época da liberdade de expressão e de imprensa, ou se esse tipo de direitos também já terá sido arrastado na enxurrada da “mudança dos tempos”.

joaopaulo.guerra@economico.pt

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Estado da Nação

“Num momento em que se avolumam os perigos e se compromete o futuro do pais, nos reafirmamos que há outras soluções e um outro caminho capaz de relançar o país na direcção do desenvolvimento económico e social.”

Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral do PCP

A Besta Ferida


“A confissão pelo mais alto responsável militar de que a guerra da NATO no Afeganistão [general Stanley Mcchystal] é um crime monstruoso contra a população civil não foi considerado tema noticioso.” É com «critérios noticiosos» como este da imprensa de referência mundial que o imperialismo modela a consciência social das populações.

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A Besta Ferida

“A confissão pelo mais alto responsável militar de que a guerra da NATO no Afeganistão [general Stanley Mcchystal] é um crime monstruoso contra a população civil não foi considerado tema noticioso.” É com «critérios noticiosos» como este da imprensa de referência mundial que o imperialismo modela a consciência social das populações.
A guerra no Afeganistão continua a fazer numerosas vítimas. As mais numerosas são aquelas de que menos se fala: na população afegã.
Numerosas são também as vítimas entre as forças de ocupação. Mas há pesadas baixas igualmente entre os dirigentes das potências agressoras. Em Fevereiro caiu o Governo holandês, após o primeiro-ministro se recusar a cumprir a promessa eleitoral de retirar as tropas. Há semanas demitiu-se o Presidente alemão, após confessar a verdade em público: a participação da Alemanha visa defender os «interesses» do grande capital alemão. Agora foi a demissão do comandante em chefe das tropas NATO no Afeganistão, o General dos EUA Stanley McChrystal.
A causa imediata da demissão foi um artigo da revista Rolling Stone em que McChrystal e seus colaboradores disparam em todas as direcções, incluindo contra altos representantes do poder político dos EUA.
O artigo traça um quadro de profundas clivagens, revelando a causa de fundo de tanta baixa política: o fracasso completo da guerra, ao fim de nove anos de ocupação de um dos países mais pobres do planeta pelas mais ricas e poderosas potências imperialistas dos nossos dias. Dá que pensar. Segundo a Rolling Stone, «o staff do General é uma colecção escolhida a dedo de assassinos, espiões, génios, patriotas, manipuladores políticos e maníacos completos».
Quem somos nós para desmentir? O articulista afirma que o General «ficou manchado por um escândalo de abuso de presos e tortura em Camp Nama, no Iraque. […] foi extremamente bem sucedido como chefe da Joint Special Operations Command, as forças de elite que executam as mais sombrias operações do Governo. Durante a escalada no Iraque, a sua equipa matou e capturou milhares de insurgentes […] “a JSOC era uma máquina de morte” afirma o Major General Mayville, seu chefe de operações».
Mas na sua parte final, o artigo faz-se porta-voz de queixas de que o General McChrystal não deixava matar o suficiente no Afeganistão, acrescentando: «quando se trata do Afeganistão, a História não está do lado de McChrystal. O único invasor estrangeiro que teve algum êxito aqui foi Gengis Khan – e ele não estava limitado por coisas como os direitos humanos, o desenvolvimento económico e a fiscalização da imprensa».
Direitos humanos? Desenvolvimento económico? Fiscalização da imprensa? De qual Afeganistão estão a falar?
No artigo refere-se que «McChrystal admitiu recentemente que “matámos um número impressionante de pessoas”» mas corta-se a parte final da frase do General: «mas tanto quanto sei, nenhuma delas se veio a provar uma ameaça» (New York Times, 26.3.10).
A confissão pelo mais alto responsável militar de que a guerra da NATO no Afeganistão é um crime monstruoso contra a população civil não foi considerado tema noticioso.
Sendo a invasão do Afeganistão obra de Bush, é Obama que decide fazer dela a «sua guerra», com o envio de mais 50 mil soldados e a nomeação de McChrystal. Prometeram-se êxitos, incluindo «a maior ofensiva terrestre desde a guerra do Vietname». A comparação é adequada, dado o fracasso evidente. Mas seria um erro subestimar os perigos. O novo comandante das forças NATO, o General Petraeus, é autor duma «directiva secreta […] que autoriza o envio de tropas de Operações Especiais dos EUA para nações amigas e hostis […] e que pode abrir caminho a possíveis ataques militares contra o Irão […]. O General Petraeus inclui-se entre os muitos altos comandantes que defendem […] que as tropas têm de agir para além do Iraque e Afeganistão» (NYT, 24.5.10).
A capa da revista que afundou McChrystal é ironicamente simbólica. Nela surge a cantora Lady Gaga em trajes mais que menores, empunhando duas metralhadoras. De facto, o imperialismo está gágá e o Rei vai quase nu. Mas não se deve subestimar o perigo de que lance mão do seu arsenal militar para – numa deriva criminosamente aventureirista – tentar sair da sua enorme crise pela via da violência e da guerra.
Jorge Cadima
Artigo original no odiario.info

A crise tem causas e responsáveis

Muito se fala de crise. Não se fala, porém, das suas causas e dos responsáveis. Os trabalhadores que sempre lutaram contra a destruição do aparelho produtivo (indústria, agricultura, pesca), porque conheciam as consequências que adviriam para todos os sectores da vida nacional, entre os quais naturalmente o de seguros, são agora responsabilizados para fazerem sacrifícios, reduzirem os salários e pensões, os subsídios sociais, pagarem novos impostos. Culpa-se a crise em abstracto. Mas quem a provocou? Quem continua a ganhar rios de dinheiro, apesar da crise?

Quem beneficiou com as privatizações, por exemplo da PT de que agora muito se fala? A União Europeia não impede que os países tenham empresas nacionalizadas. Porque reconheceu o primeiro-ministro que a entrega dos sectores estratégicos faz parte da política neoliberal e se propõe privatizar no PEC tudo o que resta?

Por outro lado, a retórica contra o sector público não visa senão criar condições para a sua entrega aos privados, degradar os serviços existentes e aumentar o custo da prestação dos serviços.

No que à saúde diz respeito, por exemplo, alguém acredita haver muitos cidadãos interessados em recorrer aos hospitais privados se a assistência nos hospitais públicos e centros de saúde não tivesse sido degradada? E alguém acredita que há no nosso país tantas pessoas com posses suficientes para alimentar, directamente ou através de seguros de saúde, tantos hospitais privados? A construção dos hospitais foi feita com garantias de que se provocaria, pela degradação, a transferência do público para o privado; o estado, além disso, encarregou-se, com custos suportados por nós todos através do Orçamento, de facilitar o encaminhamento de muitos casos para esses hospitais.

Outro exemplo bastante ilustrativo é o dos transportes ferroviários que estão a ser alvo da gula dos privados, com o objectivo de se apoderarem da parte lucrativa sobrando para o estado o prejuízo.

Vejamos o caso concreto da Fertágus:

1) A infraestrutura foi paga pelo Estado (desde a linha férrea e estações até à própria ponte). Os comboios foram comprados pelo Estado e depois “alugados” à Fertágus.

2) A Fertágus “ganhou” a concessão num concurso em que a CP, empresa pública, foi proibida, pelo próprio Estado, de concorrer.

3) O Estado garante à Fertagus escandalosas compensações financeiras – 168 milhões de euros em apena 5 anos!

4) A Fértagus explora a linha com preços que são o dobro dos da CP e não está integrada na Rede do Passe Social.

5) A Fertágus paga aos seus trabalhadores muito abaixo dos valores pagos pela CP, usa e abusa da sub-contratação, da precariedade, nega o direito à contratação colectiva.

Comparação Preços Públicos e Privado para a mesma distância

CP

Fertágus

Bilhete Coina – Lisboa e Sintra – Lisboa (mesma distância)

€ 1,70

€ 2,95

Passe Mensal (mesma distância)

€ 35,45

€ 66,25

Não se ultrapassa a actual situação sem a dinamização da economia. O aumento dos salários e pensões são a condição primeira para o aumento do consumo interno. O sector público deverá ser aproveitado e não entregá-lo aos privados. Por outro lado, os responsáveis pela crise não poderão ficar imunes e continuar a beneficiar de uma política contrária aos interesses dos trabgalhadores.