Charlie Chaplin

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas quando nunca pensei me decepcionar,
mas também decepcionei alguém.

Já abracei para proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
“quebrei a cara muitas vezes”!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi, e ainda vivo!
Não passo pela vida…
E você também não deveria passar!
Viva!
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é “muito” para ser insignificante.

(Charles Chaplin)

Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Bertold Brecht

"Soma Pouca"

Meus olhos olharam coisas estranhas no meu estranho país:
Crianças mamando fome em seios secos e sem gritos
e homens fazendo brutalmente nas mulheres a vida morta já.
Olho a cidade à tarde: ventre disforme parindo abortos só,
fábricas engolindo nervos vomitando fome pelas ruas
e nos passeios pequenas flores fanadas escorrendo dos ateliers.
Meus olhos olharam coisas estranhas no meu estranho país.

Carlos Aboim Inglez

Hipocrisia

Anda por ai muita “gente” com argumentos (que de argumento não tem nada), afim desvalorizarem a marcha de 23 Maio, da CDU, aquela em que estiveram 85.000 pessoas, que sabem para onde caminham… Uma marcha nacional, em prol de quem trabalha e de quem todos dias assiste ao roubo e tentativas de roubo dos seus direitos, a fim de serem beneficiados muito poucos, mas em muito…
Se achassem que era uma grande mobilização é que seria de admirar… Se no acto de votar fosse avaliado as politicas económicas e sociais que este governo tem vindo aplicado, de certeza que só tinham 0,3% dos votos, percentagem essa que representa aqueles que têm ganho com estas políticas, que seriam os banqueiros e os senhores do capital… No entanto teríamos que acrescentar todos aqueles que têm ganho com o PS no governo, todos aqueles que tiveram “direito” a um lugarzinho junto de qualquer Ministério ou empresa dependente do estado, consequentemente dependente deste governo… Lugares que não foram obtidos através da competência, nem do “saber”; Foram obtidos através de interesses e de objectivos que têm como fim controlar tudo e mais alguma “coisa”… Infelizmente, muitos trabalhadores já se esqueceram dos slogans do Sócrates, contra Santana Lopes, em que o PS acusava Santana de arranjar “tachos” para os amigos, dizendo que era uma vergonha, no entanto após ganharem as eleições, o PS e Sócrates num mês arranjou mais “tachos” para os amigos do que qualquer governo, durante um mandato inteiro… Já se esqueceram das palavra de ordem dos Socráticos de que havia “gente” a mais nos ministérios e etc? Pois acabaram com muitos lugares, puseram a “andar” pessoas, não interessando saber se eram úteis e faziam falta, só interessava saber que não eram das cores preferidas… depois sorrateiramente nomearam mais, muitos mais, para esses cargos e até aumentaram os números de lugares… Num País “civilizado”, sendo ou não verdade, um primeiro-ministro sério já se tinha DEMITIDO há muito tempo… mas infelizmente estamos num pais de Felgueiras e companhias…

Morre lentamente

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca,
não arrisca vestir uma cor nova e não fala com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro ao invés do branco e os pingos nos iis a um
redemoinho de emoções,
exactamente o que resgata o brilho nos olhos,
o sorriso nos lábios e coração aos tropeços.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no
trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho.

Morre lentamente quem não se permite, pelo menos uma vez na vida,
ouvir conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem passa os dias queixando se da sua má sorte,
ou da chuva incessante.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
nunca pergunta sobre um assunto que desconhece e nem responde quando
lhe perguntam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em suaves porções, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior que o simples ar que respiramos.

Pablo Neruda

A MENINA FÚTIL

A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…

– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…

A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela…

… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
promessas… porque o resto era pecado
e pecar não é com ela…
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela… )

Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;

– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…

SIDÓNIO MURALHA

É muito difícil perceber que para se acabar com a crise é essencial aumentar o poder de compra dos trabalhadores Portugueses?

Esse aumento do poder de compra não pode ser artificial, através de empréstimos, como tem acontecido durante estes anos, mas através do aumento dos salários;
O aumento do poder de compra “artificial” só serve para aumentar os lucros dos banqueiros & Compª, enquanto os trabalhadores e o estado só perdem…
Quando o dinheiro não circula através de quem trabalha, é sinal de que está retido junto de quem especula;
Os produtores não têm lucro, antes pelo contrário tem prejuízos, enquanto os preços pagos pelos consumidores/trabalhadores mantêm-se desproporcionais ao valor dos salários praticados; Sinal de que aqueles que nada produzem enchem cada vez mais os seus bolsos, limitando-se a comprar a baixo custo e a vender a preços que poderiam servir para o produtor ter capital para investir, amealhar lucros para tempo de “vacas magras”, e proporcionando verdadeiros postos de trabalho, garantido direitos aos seus trabalhadores;

Mas não, os lucros vão todos para quem nada produz e que se limitam a comprar barato (atendendo a dominarem os mercados, e os produtores têm duas opções ou vendem a esses preços, ou simplesmente não conseguem vender), e a vender de forma a ter cada vez mais margem de lucro;

Ao mesmo tempo estes senhores (donos do capital) que se limitam a comprar e a vender, e a nada produzir, mantêm a maioria dos seus trabalhadores em situações precárias e por vezes dramáticas, em que estes trabalhadores têm horários de escravidão, salários de “comerem uma latinha de salsichas”, não podem estar doentes (senão o contrato é rescindido), não podem engravidar…

Ou seja a precariedade no seu melhor, enquanto os senhores donos destes “centro de distribuição”, enchem os bolsos, investem na bolsa, abrem empresas para tudo (mas não criam postos de trabalho); Pois é essencial dividir os lucros… para pagar, ainda, menos impostos, e ter empresas para fazerem circular os trabalhadores, mesmo que passem anos a trabalhar no mesmo local e a exercer as mesmas funções…

Apropósito da crise

Numa pequena vila e estância na costa sul da França chove e nada de especial acontece.
A crise sente-se.
Toda a gente deve a toda a gente, carregada de dívidas.
Subitamente, um rico turista russo chega ao foyer do pequeno hotel local. Pede um quarto e coloca uma nota de 100 € sobre o balcão, pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspeccionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se lhe não agradar.
O dono do hotel pega na nota de 100 € e corre ao fornecedor de carne a quem deve 100 €, o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar 100 € que devia há algum tempo, este por sua vez corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este por sua vez corre a entregar os 100 € a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os 100 € e corre ao hotel a quem devia 100 € pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes.
Neste momento o russo rico desce à recepção e informa o dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos 100 €. Recebe o dinheiro e sai.

Não houve neste movimento de dinheiro qualquer lucro ou valor acrescido.

Contudo, todos liquidaram as suas dívidas e estes elementos da pequena vila costeira encaram agora optimisticamente o futuro.